A Inteligência Artificial e a água

*Claudio B. Guerra

Um dos temas mais falado e discutido hoje nas empresas, escolas e universidades, na mídia e nas redes sociais é o da IA (Inteligência Artificial).  Um verdadeiro encantamento e empolgação com o tema começou com o uso do Chat GPT e logo em seguida com o delírio de centenas de criações inovadoras e seu uso funcional, o que aumentou espetacularmente a produtividade, em diferentes ramos das atividades humanas. Sim, a IA é admirável, fantástica e trouxe consigo a espetacularização em torno de si mesma.                                                                                                                                                        Afinal, o que é a IA, quais são seus benefícios e limitações?

Segundo a ONU, 2025, “Inteligência Artificial é um termo abrangente para um grupo de tecnologias que podem processar informações e, pelo menos superficialmente, imitar o pensamento humano”.

Dessa forma, é indiscutível que a IA já contribui de forma extraordinária para avanços nas atividades humanas que melhoram a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas.

A IA pode, por exemplo, ajudar, de forma objetiva, a gestão ambiental, a medicina, a educação, os dados do clima, a agricultura, as indústrias, pelo monitoramento e análise de grandes volumes de dados. Com isso, podemos criar, identificar padrões e prever cenários de diferentes atividades. Um exemplo simples: a bola oficial da Copa do Mundo, a Trionda, com seus sensores internos, é capaz de identificar o momento exato de um chute e registrar, em tempo real, dados como posição, velocidade e rotação, com cerca de 500 informações por segundo.  Aos amantes do futebol fica uma desconfiança: cada técnico e jogador terão acesso a uma série de dados antes, durante e depois de cada partida. Isto não afetaria a magia do talento humano no gramado, tornando o jogo muito automático?                                                                                                                                                      Por outro lado, não se pode esquecer que o Crime Organizado também já faz uso rotineiro e desenvolve vários mecanismos complexos e técnicas sofisticadas utilizando a IA.                                                                                                                               É importante lembrar que a produção de IA ocupa áreas enormes chamadas CDIA (Central de Dados de IA).  

Um dos projetos de IA mais importantes no Brasil hoje é aquele desenvolvido junto à UFG (Universidade Federal de Goiás), que conta com cerca de 800 técnicos trabalhando com IA, com suporte financeiro de bancos privados, empresas de grande porte e universidades do Brasil e do exterior. Temos hoje mais de 120 CDIA (Central de Dados de IA) no país, sendo quase 50 deles de grande porte.                                                                                                                                                                   Por outro lado, Miguel Nicolelis, renomado cientista brasileiro, que trabalha há 30 anos nos Estados Unidos e que atualmente é o diretor do Centro de Neuro-engenharia da Duke University, na Carolina do Norte, pensa muito deferente e faz críticas contundentes sobre a IA.

Embora reconhecendo os inúmeros aspectos positivos que já estão sendo usados rotineiramente, Nicolelis descreve uma série de aspectos negativos da IA. Ele alerta para o fato de que as próximas gerações estão perdendo a capacidade de pensar, isto é, o comodismo pode levar ao “emburrecimento”, vale dizer, “já tenho quem pensa por mim”. Esse cientista acredita que a IA se apresenta como uma revolução tecnológica, mas na verdade é também um projeto ideológico e comercial das grandes empresas (big techs) com objetivo de maximizar a automação, que trará consigo 2 problemas muito sérios: o lucro absurdo de um grupo de poucas empresas e o desemprego em níveis preocupantes.                                                                                                                                       Fato é que mais de 90% de nossa população não tem ideia do que seja IA e não temos uma legislação ou procedimentos no país que poderiam cuidar do desenvolvimento dela, a exemplo do que vem acontecendo nos Estados Unidos e Comunidade Européia. Hoje, seus governos debatem e investem na regulação do uso da IA, com uma preocupação de não dificultar a chegada das inovações, que surgem a cada dia.                                                                                                                                                               Sam Altman, CEO da empresa norte-americana Open IA alega que “a IA não veio para substituir os humanos, mas para potencializar suas habilidades”. O que poucos sabem é que essas Centrais de Dados não só ocupam áreas enormes e são intensivas em processamento de dados: elas são também grandes consumidoras de energia elétrica, operando 24 horas por dia. Isto acarreta um consumo colossal e absurdo de água para refrigerar seus sofisticados sistemas operacionais.

A Agência Internacional de Energia (AIE), órgão da ONU, informou que a demanda de energia e água dos CDIA´s no mundo deve mais que dobrar até 2030, o que já corresponde ao consumo de energia e água equivalente à de inúmeras pequenas nações. Embora os dados globais ainda estejam sendo estimados, a AIE cita o caso da Irlanda: a ascensão da IA poderá fazer com que os CDIA´s daquele país respondam por cerca 35% do seu uso de energia até 2028.   

A exemplo da Internet, a IA se tornou tema fundamental e irreversível para nosso futuro.  O paradoxo é que as CDIA´s geram vários impactos ambientais, mas não apresentam soluções para mitigá-los. No nosso caso no Brasil, a questão tem dupla face: a eletricidade depende da água (que vem das usinas hidroelétricas) e a água para refrigeração dos sistemas elétricos vem dos rios e reservatórios.

O número de CDIA´s aumentou de 500.000 em 2012 para cerca de 8 milhões, em 2020, segundo a ONU. Especialistas estimam que a demanda por esta tecnologia continuará crescendo de forma exponencial no planeta e atingindo metas inimagináveis. Mas a ONU sempre lembra do cenário da crise hídrica no mundo hoje, no qual 2,2 bilhões de pessoas não tem acesso a água potável.                                                                 A IA não é uma deusa e nem uma vilã. Entretanto, ignorar ou tentar tornar invisível o colossal consumo da água não parece ser uma estratégia inteligente e sustentável.                                                         

* Claudio B. Guerra é consultor ambiental na bacia do Rio Doce nos últimos 30 anos. Fez o mestrado em recursos hídricos no UNESCO Institute for Water Education, em Delft, na Holanda.

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