Ciência e comunidade se unem pela segurança das águas

Projeto pioneiro na Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba aposta em tecnologias nucleares e correlatas, e na comparticipação cidadã para garantir segurança hídrica.

Caraça – Teve início entre os dias 24 e 27 de março a primeira fase do Programa Geoparticipativo de Monitoramento Quali-Quantitativo dos Recursos Hídricos no Quadrilátero Ferrífero-Aquífero (MG).

Catas Altas e Santa Bárbara, municípios do “alto Piracicaba”, estão no centro de uma iniciativa inédita que une alta tecnologia científica e engajamento comunitário (Ciência Cidadã) para enfrentar um dos maiores desafios da região: a preservação da água.

O Programa Geoparticipativo de Monitoramento Hidrológico, desenvolvido pelo CDTN e financiado por emenda parlamentar da Deputada Federal Duda Salabert, busca criar uma caracterização hidroambiental de alta precisão, capaz de subsidiar políticas públicas e fortalecer a gestão sustentável dos recursos hídricos.

Essa primeira fase (campanha de reconhecimento) teve como ponto base o complexo do Santuário do Caraça (RPPN do Caraça), parceiro do projeto, instituição da sociedade civil que originalmente demandou pesquisas sobre as possíveis causas da redução dos recursos hídricos, identificada na sua instalação hoteleira (Fazenda do Engenho), localizada na bacia do córrego do Engenho, região baixa da RPPN.

Essa fase contou com a participação do vice-presidente do CBH Piracicaba, Geraldo Magela Gonçalves Dindão, que vem atuando pela implementação do programa em toda bacia desde 2024, quando foi realizada uma demonstração com conselheiros no CBH Piracicaba e do CBH Doce, também na RPPN Caraça.

Essa atual campanha de campo consistiu em seleção de pontos estratégicos para medição de vazão de corpos hídricos e coleta inicial de sedimentos de rio, além do começo dos contatos com comunidades no entorno da área (Distrito de Brumal) para a implantação das campanhas de monitoramento de vazão.

Diagnóstico de Alta Precisão

O projeto se apoia em dois pilares: “Monitoramento Qualitativo”, através de análises físico-químicas dos sedimentos dos rios com técnicas analíticas avançadas como a espectroscopia no infravermelho, a difração de raio-X, espectroscopia Raman, espectroscopia Mößbauer e análise por ativação neutrônica. Essas ferramentas permitirão identificar a “impressão digital” dos sedimentos, rastreando alterações hidroambientais com rigor científico.

Já o “Monitoramento Quantitativo”, consiste na medição de vazão em corpos hídricos superficiais por meio de traçadores salinos, uma metodologia de baixíssimo custo e de fácil replicação pela comunidade.

Ciência Cidadã: A Força da Comunidade

O diferencial do programa é a abordagem geoparticipativa, que combinará os dados levantados com os relatos e medições que poderão feitas pelos próprios moradores. Voluntários locais serão capacitados para coletar dados e contribuir com o histórico ambiental da região. Como destaca o projeto: “O engajamento da comunidade é vital para a continuidade do monitoramento.”

Ainda na primeira fase, aconteceram duas visitas à Associação das Tecelãs de Brumal, quando a coordenadora, Dilce Mendes, recebeu a equipe na sede da instituição, sendo promovida a segunda conexão do projeto com uma das comunidades inseridas na área de abrangência do estudo.

Zonas de Recarga Hídrica

Com apoio de geoprocessamento e sensoriamento remoto, o projeto também identificará os potenciais Áreas de Preservação Permanente (APPs) de topo de morro de todo o Quadrilátero Ferrífero-Aquífero (QFA), locais estratégicos onde a água da chuva infiltra. A proteção dessas zonas é essencial para manter o ciclo hidrológico completo e garantir a integridade dos ecossistemas.

Resultados esperados

Através da implementação do projeto espera-se obter um diagnóstico representativo da situação volumétrica dos corpos hídricos principais do Rio Caraça (em especial na estação seca), a caracterização dos sedimentos de alguns rios da região, o mapeamento das zonas prioritárias de recarga hídrica, assim como a formação de cidadãos engajados e capacitados para o protagonismo hidroambiental. Diante dos resultados obtidos, planeja-se a publicação de artigos científicos e sua divulgação para toda bacia.

O programa dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, como água potável e saneamento (ODS 6), saúde e bem-estar (ODS 3), cidades sustentáveis (ODS 11), vida na água (ODS 14) e parcerias globais (ODS 17).

A iniciativa começa em Catas Altas e Santa Bárbara, mas tem potencial de expansão para toda a Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba (MG), afluente do Rio Doce, beneficiando comunidades locais, gestores públicos e comitês de bacia.

Em síntese, o Programa Geoparticipativo mostra que ciência de precisão e participação popular podem caminhar juntas para proteger um recurso vital — a água — e garantir sustentabilidade para as próximas gerações.

Participações

O programa é coordenado pelo geólogo e docente de pós-graduação Paulo Rodrigues, do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), onde serão desenvolvidas as análises dos sedimentos e Geoprocessamento, e integrante do Grupo de Pesquisa e Extensão EduMiTe (Educação, Mineração e Território – UFMG). A geógrafa Dra. Simone Alves (bolsista de pós-Doc) é a responsável pela identificação das Zonas de Recarga Hidrica. O projeto conta também com o geógrafo Me. Frederico Gonçalves (supervisor científico), com o bolsista de extensão, Mateus Braz (graduando em Biologia/UFMG), com o biólogo e voluntário pós-Dr. Rodrigo Moura (especialista em Ativação Neutrônica), com o geólogo Dr. Gustavo Filemon (especialista em geoquímica, também do CDTN) e com o geólogo voluntário Me. Sandro Costa. Participaram também dos primeiros contatos com a comunidade de Brumal, o conselheiro do CBH Piracicaba, Geraldo Magela Gonçalves Dindão e as professoras Dra. Lussandra Gianasi (geógrafa) professora associada do Departamento de Geografia do IGC-UFMG e Dra. Daniela Campolina (bióloga), ambas à frente do EduMiTe.

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