El Niño, Inteligência Artificial e Nós

*Claudio B. Guerra
Geral – As mudanças climáticas não se limitam aos impactos socioambientais. Nos últimos três anos, esta coluna mostrou como seus efeitos negativos se espalham pela economia, transporte, infraestrutura, saúde pública, agronegócio, indústria e comércio. A emergência climática é indiscutível, embora muitas vezes negligenciada nas Convenções da ONU.
Segundo a OMM, o El Niño previsto para 2026-2027 será mais intenso, pois oceanos e atmosfera já estão aquecidos pelas mudanças climáticas. Isso pode resultar em:ondas de calor mais fortes, secas prolongadas, incêndios frequentes, chuvas extremas e inundações.
No Brasil, espera-se:aumento de chuvas no Sul, com risco de eventos extremos, redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste, imprevisibilidade no Sudeste e Centro-Oeste.
Desigualdades Sociais e Vulnerabilidades climáticas
O Brasil, apesar de suas riquezas naturais, enfrenta graves desigualdades:27,4% da população vive em pobreza (59,4 milhões de pessoas); 4,4% em extrema pobreza (9,3 milhões). Mais de 80% das cidades brasileiras apresentam alta ou média vulnerabilidade climática. Como alerta o Prof. Carlos Nobre (INPE), é urgente reduzir emissões de CO₂ e orientar a população sobre como conviver com ondas de calor.
Além disso, 85% da população vive em áreas urbanas e circula com uma frota de 124 milhões de veículos, liberando diariamente enormes volumes de CO₂.
Responsabilidade Governamental
O Governo Federal, junto aos estados, municípios, empresas e sociedade civil, tem obrigação legal e ética de: reduzir emissões, adaptar-se às mudanças, promover a transição para uma economia sustentável.
Apesar de políticas e planos já existirem, faltam ações concretas. Os avanços atuais são lentos diante da gravidade da situação.
Inteligência Artificial como aliada
A IA já contribui para a geração e análise de grandes volumes de dados climáticos, identificação de padrões, previsão de cenários em diferentes setores econômicos.
A IA pode ser usada para o bem, mas também já é explorada pelo crime organizado. O desafio é garantir que seu uso seja ético e voltado para soluções sustentáveis.
“A IA não veio para substituir os humanos, mas para potencializar suas habilidades.”— Sam Altman, CEO da OpenAI
Avanços Globais e no Brasil
Países do G7 e BRICS já utilizam IA de forma corriqueira. O Brasil lidera em data centers na América Latina, com mais de 120 CDIA, quase 50 de grande porte. Barueri (SP) abriga o 5º maior complexo de data centers do mundo.
O CEIA (Centro de Excelência em IA), criado em 2019 em Goiás, tornou-se parceiro do 1º curso de graduação em IA no país, lançado pela UFG.
IA e Mudanças Climáticas
A IA já revoluciona previsões climáticas, tornando-se essencial para: Agricultura, energia elétrica, transportes, previsão de eventos extremos. Ela salva vidas e favorece a sustentabilidade econômica e ambiental.
Questões Éticas e regulatórias
Perguntas cruciais permanecem:Quem define regras e responsabilidades no uso da IA? Como evitar que a IA autônoma defina seus próprios objetivos? A IA poderá suplantar a inteligência humana? Quem vai definir as regras, as salvas guardas e os mecanismos de responsabilização e punição, no caso de conflitos no uso da IA? Quem vai fazer a regulação, avaliação, auditorias para garantir a primazia dos interesses humanos? Não é um exercício de imaginação: As IA´s autônomas podem se tornar poderosas o suficiente para ameaçar o mundo. Elas terão ingerência direta nas questões social, econômica, ambiental e política. Na concorrência e corrida desenfreada das big techs em busca de mais desenvolvimento de soluções criou-se uma espiral megalomaníaca, que não tem fim. O resultado desejado é sempre mais e mais lucros
Big techs como Nvidia, Anthropic, OpenAI e SpaceXAI reconhecem a necessidade de discutir limites, mas a corrida por lucros aumenta riscos. Tentativas de regulação, como a norma ISO/IEC 22.989 (2022), fracassaram diante da velocidade das inovações.
A União Europeia, EUA e Vaticano discutem há anos um “Tratado de Segurança da IA”. Institutos de Segurança já funcionam nesses países. O famoso matemático e Prof. Jacob Tsimerman alerta que padrões de segurança atuais devem ser muito mais rigorosos.
Casos recentes mostram riscos reais: em 2026, a Anthropic bloqueou o uso indevido da IA para criar armas biológicas.
Enquanto isso, EUA e China disputam a liderança tecnológica, rejeitando regulações. A IA não é apenas uma ameaça futura: ela já molda o presente.
O Desafio Brasileiro
O Brasil precisa capacitar sua população sobre benefícios e riscos da IA. Prioridade: levar conceitos e aplicações para 178 mil escolas, abrangendo cerca de 50 milhões de alunos. Isso exige qualificação de professores, infraestrutura tecnológica, incentivo ao uso responsável da IA entre jovens.
* Claudio B. Guerra é consultor ambiental na bacia do Rio Doce nos últimos 30 anos. Fez o mestrado em recursos hídricos no UNESCO Institute for WaterEducation, em Delft, na Holanda.

