As Terras Raras e sua importância para nosso futuro

*Por Claudio B. Guerra

As chamadas terras raras constituem um conjunto de 17 elementos químicos distribuídos em diferentes tipos de minerais. Entre eles estão os 15 elementos da série dos lantanídeos: Lantânio (La), Cério (Ce), Praseodímio (Pr), Neodímio (Nd), Promécio (Pm), Samário (Sm), Európio (Eu), Gadolínio (Gd), Térbio (Tb), Disprósio (Dy), Hólmio (Ho), Érbio (Er), Túlio (Tm), Itérbio (Yb) e Lutécio (Lu), além do Escândio (Sc) e do Ítrio (Y).

Esses minerais possuem propriedades únicas, como alta condutividade, luminescência e capacidade de armazenamento de energia, sendo fundamentais para a fabricação de computadores, smartphones, veículos elétricos, lâmpadas LED, equipamentos médicos e sistemas de defesa.

Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente escassas na natureza. O grande desafio está na identificação, extração e processamento economicamente viáveis. Por isso, muitos especialistas as classificam como as “vitaminas da indústria moderna” ou até mesmo um “novo petróleo”. No entanto, sua exploração também pode causar impactos ambientais significativos, como elevado consumo de água, geração de resíduos e alterações permanentes na paisagem.

No Brasil, as principais reservas estão localizadas em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. Atualmente, a Mina Serra Verde, em Minaçu (GO), é a única em produção de terras raras em grande escala. Minas Gerais concentra importantes depósitos em Araxá, Tapira, Poços de Caldas, Caldas e Andradas.

O país já possui experiências relevantes na exploração de minerais estratégicos. A CBMM, em Araxá, tornou-se líder mundial na produção de nióbio, respondendo por cerca de 80% da oferta global. Outro destaque é o lítio do Vale do Jequitinhonha. A empresa norte-americana USA Rare Earth (URE) adquiriu recentemente a Sigma Lithium, que produz cerca de 260 mil toneladas anuais de concentrado de lítio. No entanto, o refino final ainda ocorre na China, evidenciando a disputa geopolítica por minerais críticos.

Nesse cenário, Poços de Caldas (MG) desponta como futuro polo nacional de terras raras. Em 2023, a australiana Viridis Mining & Minerals adquiriu uma área de aproximadamente 235 km² na região e os direitos minerários de uma das maiores reservas de terras raras fora da China. Os projetos Caldeira e Colossus envolvem empresas do Brasil, Estados Unidos, Austrália e Canadá, com expectativa de produção de insumos para ímãs utilizados em drones, satélites, semicondutores e equipamentos militares a partir de 2027/2028.

O crescente interesse estrangeiro reflete a corrida global para reduzir a dependência da China, que domina o refino mundial de terras raras. Estimativas indicam que o Brasil possui cerca de 20% das reservas globais, enquanto a China concentra aproximadamente 40%, tornando esses recursos estratégicos para a economia e a segurança internacional.

Diante desse contexto, o Governo Federal promulgou, em 16 de setembro de 2026, a Lei nº 15.506, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) e o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE). A legislação busca fortalecer a pesquisa, a exploração sustentável, o beneficiamento e a industrialização desses minerais, além de permitir ao governo avaliar e vetar acordos internacionais que possam ameaçar a segurança econômica e geopolítica do país.

Uma disputa apenas começando

A batalha pelo controle das terras raras ultrapassa a questão mineral. Trata-se de uma disputa por tecnologia, soberania, indústria e influência global.

À medida que a transição energética avança e aumenta a demanda por veículos elétricos, semicondutores, sistemas de defesa e equipamentos eletrônicos, o Brasil passa a ocupar posição estratégica nesse novo cenário internacional.

Se o país conseguirá transformar suas reservas minerais em desenvolvimento tecnológico e industrial próprio ou apenas ampliar seu papel como fornecedor de matéria-prima para potências estrangeiras é uma questão que ainda está em aberto. Uma coisa, entretanto, parece certa: a disputa pelas reservas minerais estratégicas brasileiras está apenas começando.

*Claudio B. Guerra é consultor ambiental na Bacia do Rio Doce há mais de 30 anos e mestre em Recursos Hídricos pelo UNESCO Institute for Water Education, em Delft, Holanda. (26/10/2026).

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.