Antes de culparem as chuvas, se preparem
A cidade vai se construindo em meio a uma desordem anunciada. Brejos são aterrados, construções avançam sobre áreas de risco sob o olhar míope das autoridades, encostas são ocupadas, morros desmatados e rios poluídos. O asfalto cobre cada vez mais o solo, córregos desaparecem sob o concreto e o lixo acumulado diariamente encontra seu destino previsível: entupir bueiros e assorear cursos d’água. Então chega a abençoada chuva e aquilo que deveria ser uma dádiva transforma-se em caos.
Barrancos desmoronam. Comércios e escolas ficam alagados. A lama toma conta de ruas e avenidas. Em muitos bairros, a água alcança os joelhos e invade residências. Trata-se de um filme repetido, conhecido por todos. Os serviços de meteorologia alertam ano após ano: novembro, dezembro, janeiro e fevereiro são meses tradicionalmente marcados pelas chuvas.
Ao mesmo tempo, a crise hídrica continua preocupando a população e pesando no bolso com o aumento das tarifas de energia elétrica. Nada mais esperado, portanto, do que a chegada das chuvas em sua época para abastecer reservatórios e garantir segurança hídrica.
Para quem consegue despertar do estranho transe da vida moderna e perceber a importância da água, ver o céu descer à terra deveria ser motivo de alegria. A chuva traz alívio ao calor do verão, enche reservatórios, garante água nas torneiras, reverdece pastagens e lavouras, produz alimentos e ajuda a manter as luzes acesas. É o cheiro de terra molhada, a nascente que se recompõe, a cachoeira que volta a correr, a vida que renasce e a esperança que floresce.
Eventos extremos exigem planejamento
Cientistas e especialistas alertam há anos que eventos climáticos extremos tendem a se intensificar e ocorrer com intervalos cada vez menores. Apesar disso, o planejamento urbano integrado e a gestão adequada das bacias hidrográficas seguem longe de ocupar posição prioritária nas agendas governamentais.
Os próprios rios dão o recado. Após períodos de chuva intensa, as águas retornam com força para reivindicar seu espaço. Canalizações, tamponamentos, retificações de cursos d’água e ocupações irregulares de margens demonstram seus limites diante das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, a retirada das matas ciliares e a impermeabilização crescente do solo reduzem a capacidade natural de absorção da água.
Por isso, as enchentes não podem ser atribuídas exclusivamente ao volume das chuvas. Existe amplo conhecimento técnico acumulado sobre o tema, incluindo projetos de macro e microdrenagem que indicam caminhos para reduzir os impactos das inundações. Essas soluções, contudo, exigem planejamento, investimentos contínuos e ações integradas.
A segurança hídrica depende diretamente da gestão adequada da água e do solo, além da preservação das áreas de manancial e das matas nativas.
Soluções baseadas na natureza
Diante desse cenário, especialistas defendem o fortalecimento de ações preventivas. A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda a adoção urgente de soluções baseadas na natureza como estratégia de adaptação das cidades às mudanças climáticas.
Áreas verdes e várzeas funcionam como verdadeiras esponjas naturais, aumentando a infiltração da água no solo e reduzindo o volume que escoa rapidamente para córregos e rios. A recuperação desses espaços, especialmente em áreas degradadas por ocupações irregulares, tornou-se uma necessidade urgente.
Isso inclui a realocação de famílias que vivem em áreas de risco para locais seguros, com acesso a saneamento básico e infraestrutura adequada.
Mais do que nunca, é necessário que as cidades brasileiras adotem um modelo de desenvolvimento verdadeiramente justo, inclusivo e sustentável.
Chuva na época de chuva
Se as chuvas são previsíveis em determinados períodos do ano, por que as cenas de calamidade continuam se repetindo?
A resposta está no descaso coletivo.
Quando a cidade cresce sem planejamento, os prejuízos chegam junto com a água. Quando a educação ambiental não avança, o lixo descartado incorretamente retorna para dentro das casas. Quando não há respeito pelos limites impostos pela natureza, a conta inevitavelmente chega.
Essa responsabilidade é compartilhada. É do poder público, das empresas e de cada cidadão. Todos participam, em diferentes níveis, da construção do problema e, consequentemente, da solução.
A única inocente nessa história é justamente aquela que costuma ser acusada: a chuva.
Porque chuva, quando cai em sua época, não é tragédia. É vida. É a cidade que, por miopia própria, transformou a bênção em problema.


