A arisca garrincha-chorona, uma ave das alturas
- Aves do Piracicaba
Dindão- 09/03/2026
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As mais altas serras do Sudeste brasileiro são o refúgio de uma rabilonga e arisca ave, a garrincha-chorona (Asthenes moreirae), espécie típica dos campos de altitude, geralmente encontrada acima dos 1900 m.
Mas o mais interessante é como que esse passarinho de menos de 20 cm de comprimento resolveu viver somente nessas grandes altitudes, onde não raramente o vento é constante e as temperaturas congelantes.
Parente do joão-de-barro e do joão-cipó, a garrincha-chorona só ocorre nos píncaros das Serras dos Órgãos (e adjacências), do Caparaó, da Mantiqueira e na nossa querida Serra do Caraça, onde se encontra o ponto culminante da Cadeia do Espinhaço, o Pico do Sol, com seus mais de dois mil metros de altitude.
A Serra do Caraça é o único ponto da Cadeia do Espinhaço onde ocorre essa espécie. Em outras áreas não tão altas do Espinhaço mineiro, seu congênere, o joão-cipó (Asthenes luizae), também pode ser encontrado.
O maior pesquisador da natureza do Caraça, o ilustre professor Marcelo Vasconcelos, explicou-me que essa sua ocorrência tão peculiar, tão localizada nos pontos culminantes dessa parte do nosso país, possivelmente se deve ao fim da última era glacial, quando a garrincha-chorona, como um refugiado do clima, encontrou nas serras mais altas, um lugar mais propício para sobreviver.
Outro dado interessantíssimo que foi pesquisado pelo ornitólogo Odirlei Vieira da Fonseca, durante seu mestrado no Museu Nacional, é que as populações das serras do Caraça e do Caparaó possuem vocalização e plumagem ligeiramente diferente das demais.
A garrincha-chorona é uma sobrevivente das mudanças climáticas ocorridas no planeta, mas contra a ignorância humana ela tem poucas chances.
Recentemente um grande incêndio na parte mais alta do Caraça quase exterminou essa espécie de nossa bacia e, caso as previsões de aquecimento global se concretizem, ela não terá mais para onde se refugiar, já que está “acuada” no limite máximo de altitude de nossas serras.
Depois de muitas buscas empreendidas pela equipe do prof. Marcelo Vasconcelos, e para alívio de todos, a garrincha-chorona foi reencontrada e ainda resiste bravamente no Caraça.
Sua distribuição tão restrita a torna uma espécie muito vulnerável à extinção local. Uma joia da biodiversidade e da história natural do nosso planeta que deve ser preservada a qualquer custo.
Bem pessoal, nós somos muito privilegiados, pois temos desde as terras altas do Espinhaço, a oeste, até as florestas de baixada do PERD, a leste, o que propicia a riquíssima avifauna que ainda resiste na nossa bacia, apesar dos séculos de desmatamento e das conhecidas ameaças das grandes corporações que visam o lucro a qualquer preço.
