Aquecimento global amplifica “tragédias anunciadas”
O planeta vem enfrentando uma sequência de eventos climáticos extremos que, cada vez mais, deixam claro o impacto do aquecimento global. Nevascas intensas nos Estados Unidos, Japão e Rússia, furacões e ciclones na América Central, chuvas torrenciais em Portugal, Espanha e Marrocos — e, neste mês de fevereiro, também no Brasil.
Em Minas Gerais, cidades como Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa foram duramente atingidas por precipitações excepcionais. O saldo é devastador: inundações catastróficas, múltiplos deslizamentos de terra, interrupção de serviços urbanos e rurais e, até agora, 68 mortos, além de desaparecidos. Dados meteorológicos mostram que Juiz de Fora registrou o fevereiro mais chuvoso de sua história, com volume superior a 240% da média climatológica. Entre os dias 22 e 24, o acumulado chegou a 229,9 mm.
Clima mais quente, riscos maiores
Especialistas apontam que o aquecimento global intensifica tanto os períodos de chuvas extremas quanto os de seca. Esse desequilíbrio amplia o risco de enchentes e estiagens severas, transformando fenômenos naturais em tragédias fatais.
Ocupação desordenada e falha de governos
A catástrofe em Minas Gerais não pode ser explicada apenas pelo clima. A ocupação irregular de áreas urbanas, a construção em encostas e a remoção da vegetação nativa expõem o solo e aumentam a vulnerabilidade. A ausência de políticas habitacionais eficazes, obras de contenção e sistemas de drenagem agrava ainda mais os impactos.
A falta de fiscalização e o licenciamento de empreendimentos em áreas de risco revelam a omissão do poder público. O resultado é previsível: tragédias que poderiam ser evitadas.
Ano após ano
Entre 1991 e 2024, desastres associados a chuvas no Brasil deixaram ao menos 4.079 mortos e cerca de 10,5 milhões de pessoas desalojadas ou desabrigadas, segundo o Atlas de Desastres do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.
Tragédias se repetem por falta de responsabilização
Pesquisadores da chamada “Criminologia do desastre” destacam que a repetição desses episódios está ligada à ausência de responsabilização e à banalização da vida. A violência estrutural legitimada pela inércia das instituições transforma eventos climáticos em tragédias sociais.
Como a população esquece, quando chegam as eleições, sejam gerais ou locais, nem sabem quem fez ou deixou de fazer algo para evitar a repetição dessas tragédias.
Até a próxima tragédia
Passado o impacto inicial, a rotina retorna. Estruturas são reconstruídas, manchetes desaparecem e, para muitos, a tragédia cai no esquecimento. Mas para quem perdeu familiares, a dor permanece. E, sem mudanças estruturais, sem responsabilização, sem compromisso das autoridades principalmente políticas, o ciclo tende a se repetir — até a próxima tragédia anunciada.
Agravantes na Bacia do Piracicaba
Além das questões climáticas que potencializam os eventos extremos, tornando-os mais frequentes, a Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba tem um agravante que também precisa ser levado em consideração pelas administrações de cada cidade e buscar um trabalho em conjunto, já que as 21 cidades que compõe o hidro território se encontra sob inúmeras barragens de rejeito de mineração e novas estruturas sendo licenciadas.

