COP 30: poder sem saber e saber sem poder
- Águas e mudanças climáticas
Dindão- 01/02/2026
- 0
- 7707
- 5 minutos
Encerrada a COP 30, não nos restou apenas frustrações. Temos de ter “resiliência climática” e não “luto climático”. Porém, é imperativo nos prevenir do perigoso imobilismo. Portanto, devemos insistir em REDUZIR as emissões, INCENTIVAR a transição energética, RESPEITAR o Acordo de Paris e cada país RESPEITAR sua CND (Contribuição Nacional Definida). Aqui vale frisar a participação da ciência, principalmente através do IPCC, do OBSERVATORIO DO CLIMA e outros.
Um dos documentos técnicos mais importantes lançados durante a COP foi o livro Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento.
O livro contou com a participação dos mais respeitados cientistas de todo Brasil e sua coordenação ficou a cargo da USP (Universidade de São Paulo). A publicação oferece contribuições para a mitigação e redução de eventos, ações de adaptação urbanas além da importante integração entre empresas, governos e cientistas.
Por exemplo, o capítulo 7 versa sobre A contribuição da ciência agrícola brasileira para os desafios das mudanças climáticas, o capítulo 8 sobre Mudanças climáticas e saúde e o capítulo 10 sobre Mudanças climáticas: impactos econômicos identificados e projetados no Brasil.
Segundo o reconhecido prof. Carlos Nobre (INPE) é preciso cobrar e pressionar o rico e importante Agronegócio, pois ele foi indicado como um dos setores mais negacionistas da nossa sociedade.
A Convenção não conseguiu avançar no ritmo que os cientistas esperavam. Foi frustrante, embora eles tivessem disponibilizado documentos técnicos do mais alto nível, mostrando claramente, por exemplo, que o agronegócio corre risco de perdas econômicas enormes com os eventos climáticos extremos.
O agravamento da emergência climática ocorre num contexto em que conflitos políticos, sociais, comerciais e ambientais desafiam e ameaçam a vida de 8 bilhões de pessoas nesse planeta.
Os cientistas insistem que o objetivo maior é manter o aquecimento global em até 1,5°C, o chamado “limite seguro” das mudanças climáticas – algo que já vem sendo questionado, uma vez que recordes consecutivos de calor estão sendo quebrados. Mas hoje corremos o risco de ultrapassar o ‘limite seguro’ do Acordo de Paris que pode triplicar áreas de calor extremo.
Minha conclusão é que, depois de muitas discussões e pouquíssimos avanços concretos, muitas perguntas ficaram sem respostas na COP30. A pergunta que mais precisamos fazer, de forma continuada é: a COP 30 veio para proteger a vida de 8 bilhões das pessoas no planeta hoje e no futuro ou para defender os interesses da indústria de combustíveis fósseis?
E agora, o que fazer? os cientistas nos sugerem envolver as comunidades nas ações pós COP 30, transformando suas decisões, planos e programas em práticas diversificadas, visíveis e enfatizar os exemplos de boas práticas; continuar mostrando os efeitos negativos do regime climático na qualidade de vida das pessoas e pressionar os governos.
Finalmente, cabe lembrar que os cientistas vivem uma situação paradoxal de SABER versus PODER, isto é, têm o conhecimento para resolver os problemas, mas o PODER não resolve os problemas pela falta de conhecimento (e outros motivos).
* Claudio B. Guerra é consultor ambiental na bacia do Rio Doce nos últimos 30 anos. Fez o mestrado em recursos hídricos pelo UNESCO Institute for Water Education, em Delft, na Holanda
