COP 30: Otimismo exagerado X Incertezas da convenção
- Águas e mudanças climáticas
Cláudio Guerra- 05/11/2025
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Faltando poucos dias para o início da COP 30, vozes pessimistas e otimistas surgem de
diferentes áreas, como é o caso da CEO da Convenção, Ana Toni, que afirma que o Brasil pode
se transformar no país líder da transformação ecológica no mundo, mas não devemos esquecer
que ainda existe um risco de metade dos países não participarem e não atualizarem suas metas
de emissão dos GEE´s, isto é, suas CND (Contribuições Nacionais Determinadas).
O otimismo dos organizadores da COP 30 mostra que o desejado é criar um ciclo virtuoso da
resiliência e adaptação ao conflito climático. Nele, espera-se que lideranças empresariais
nacionais e internacionais apóiem um processo de transformação econômica da região, atraindo
novos investimentos que se desdobrariam em oportunidades de crescimento e geração de
milhares de empregos. Iniciativas já consolidadas e outras em andamento justificam o otimismo
dos organizadores da Convenção, tanto no setor público quanto no privado.
O setor privado global, através da ONG Sustainable Business (SB), com representantes de cerca
de 60 países, entregou um documento ao Presidente da COP 30 com dezenas de
recomendações numa inédita aproximação entre a economia real e a diplomacia climática.
Porém, paralelamente, se observa que a maioria dos países não está cumprindo as metas do
Acordo de Paris. Alguns estão até aumentando o consumo de combustíveis fósseis.
A ONU e o Governo do Brasil firmaram um acordo e financiamentos do TFFF (Fundo das Floretas
Tropicais para Sempre) que receberá um aporte de US$25 bilhões.
O MMA (Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima) e o INPE (Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais) lançaram recentemente o Programa Deter NF que permitirá o
monitoramento diário de todo o Bioma da Amazônia, incluindo também as áreas não florestais.
O já elaborado Plano Nacional de Bioeconomia irá fazer um chamamento às empresas nacionais
e internacionais a liderarem um Plano de Transformação Ecológica (PTE) que pode transformar
as pressões políticas e econômicas em oportunidades de nos reposicionarmos no mercado
global. Este é o grande desafio, que depende não só de nossa capacidade de inovação
tecnológica, mas também de acessos a “investimentos verdes”, fortalecimento de acordos
diplomáticos e comerciais, potencial de descarbonização de nossas próprias cadeias produtivas
etc. Nesse Plano são detalhadas as cadeias produtivas prioritárias como Biocombustíveis,
Minerais Críticos, Bio saúde e alimentos, adaptação da “infraestrutura urbana verde”, Data
Centers, etc.
O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Albert Gore (ganhador do Prêmio Nobel da Paz, em
2007, pelo seu documentário Verdades Inconvenientes) reafirmou recentemente que, não
obstante o quadro dramático do conflito climático, ainda é possível desenvolver projetos
sustentáveis na Amazônia, sem destruir a floresta, cumprindo a legislação ambiental, fiscal e
trabalhista. Segundo ele, “a transição para uma economia sustentável pode se tornar na maior
oportunidade de negócio desta geração”, num processo de comprometimento real de
comunidades, governos, empresas e investidores.
Por outro lado, causa preocupação a participação incipiente da sociedade local, dos povos
originários e da opinião pública do país em contraste com uma ativa, efervescente e diversificada
agenda de acordos, financiamentos, inovações, projetos etc.
“Será mais uma Convenção do Clima dominada pelo Mercado”? terá ela a capacidade de
impulsionar uma transformação estrutural e mostrar os caminhos e os instrumentos para se criar
um modelo de desenvolvimento econômico, social e ambiental na Amazônia?
É muito preocupante que o tema Educação não esteja no centro dos acordos e decisões. A
educação, climática ou não, deve ser entendida como um pilar que sustentará um novo
planejamento urbano, buscando tornar as cidades mais sustentáveis. Além disso, existe um tema
crucial, esquecido pelo otimismo dos organizadores: o próprio Governo Federal reconhece que
hoje metade das cidades brasileiras (cerca de 2.500) vive em alta vulnerabilidade climática. O
quadro de desigualdades econômicas, sociais, e ambientais na Amazônia certamente vai
surpreender visitantes brasileiros ou não. As condições da infraestrutura urbana e do saneamento
são inacreditáveis: a grande maioria dos 772 municípios amazônicos são pobres, salvo 3
exceções.
Assim, os processos de gestão, competente e transparente, em escalas local e regional, são
fundamentais para desenhar e construir de um novo cenário na Amazônia, onde vivem hoje mais
de 21 milhões de habitantes. Portanto, o paraíso da natureza acolhe os homens, os sustenta e os
enriquece. E aí “o poder dos homens sobre a natureza passa a ser o poder de alguns homens
sobre outros homens, tendo a natureza como instrumento (C.S.Lewis).
Concluindo, o otimismo dos organizadores da COP 30 e a massiva propaganda da PETROBRAS
nos veículos de comunicação passam a ideia de que a transição para a economia verde é uma
coisa simples, o que não é verdade. Ela é muito complexa, leva tempo e exige, principalmente,
mudanças de comportamentos, de atitudes e de comprometimento dos grandes
empreendimentos nacionais e internacionais. É impossível coibir ou regular a atuação dos lobbies
durante a Convenção e depois dela. Por isso, todos avanços e conquistas precisam ser
fiscalizados, acompanhados e monitorados, por exemplo, parte deles pelo foco do
OBSERVATÓRIO DO CLIMA.
Enquanto, isso o Brasil precisa provar que somos capazes de atingir o desmatamento zero até
2030 e cumprir as metas de Acordo de Paris.
* Claudio B. Guerra é consultor ambiental na bacia do Rio Doce nos últimos 30 anos. Fez o
mestrado em recursos hídricos pelo UNESCO Institute for Water Education, em Delft, na Holanda.
