COP 30: Emergência climática e marketing
- Águas e mudanças climáticas
Dindão- 16/10/2025
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Atualmente, na Amazônia, os grandes grupos econômicos nacionais e internacionais, apoiados pelos governos, se preocupam, prioritariamente, com a manutenção do seu “status quo”. Assim, eles desempenham papel preponderante no processo de desenvolvimento regional e no desenho dos possíveis cenários para a região. As políticas de integração e desenvolvimento através da construção de eixos viários, principalmente os vetores de expansão da fronteira agrícola e do desmatamento atendem prioritariamente os interesses econômicos desses grupos. É fácil perceber que essas mesmas forças hegemônicas de hoje são também os obstáculos às mudanças e implementação de um novo modelo de desenvolvimento sustentável no futuro. Conhecendo a realidade melhor que ninguém, elas atuam para fortalecer a reprodução e ampliação do modelo atual, que vem se desenrolando há décadas. Assim, prevalecem a exploração voraz das riquezas naturais da região (minérios, biodiversidade, águas, pesca, frutos, etc) voltados para um desenvolvimento pouco sustentável, onde o cenário de desigualdades sociais é inaceitável e onde o crescimento econômico a qualquer preço, deixa bem de lado os aspectos sociais e ambientais.
Portanto, parece ser absolutamente necessário reformas estruturais, que alterem os níveis elevados de concentração de renda, melhorem as condições de acesso à infra-estrutura de bens e serviços públicos( tratamento de água e esgotos), ampliem os canais de participação das diferentes organizações da sociedade civil e dos povos originários, assegurem a legitimidade de representação dessas organizações e ampliem seus direitos de participação.
Nas últimas décadas, a Amazônia foi uma das regiões mais estudadas no Brasil pelas universidades e outras instituições nacionais e internacionais : houve um aumento do número de estudos, especialistas e representantes de setores sociais que trazem consigo uma preocupação comum : oferecer alternativas sustentáveis para a região e mobilizar as forças políticas e sociais para que se possa canalizar e implementar num novo modelo sustentável.
Dentre esses estudos, um merece destaque pela profundidade de suas análises e pelo seu caráter propositivo: o AMAZÔNIA 2030 :Bases para o Desenvolvimento Sustentável, produto do trabalho de um grupo de 60 pesquisadores e publicado em 2023, pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. Esse estudo avalia que as soluções para os problemas amazônicos passam, obrigatoriamente, por 2 linhas mestras: a do Desmatamento Zero e a do Re-ordenamento territorial.
Por outro lado, falando em futuro, é importante lembrar que a COP 30 será uma grande oportunidade para que os grandes empreendimentos, como o caso da VALE S.A, por exemplo, mostrarem suas preocupações com a sustentabilidade e com um desenvolvimento econômico e social justo, ignorando o quanto precisa restaurar e compensar de seu enorme passivo ambiental, ao longo de décadas naquela região. Como patrocinador máster da Conferência, a VALE S.A dita a estratégia da parceria com o Governo do Pará: há meses já vêm sendo investidos milhões de reais nas construções de galpões enormes, onde encontraremos painéis coloridos e interativos sobre a floresta (preservada?), a biodiversidade, os rios, turismo, economia circular, transição energética, mudanças climáticas etc. Além disso, serão disponibilizados materiais atrativos e coloridos para as crianças sobre a floresta. Um show que será mostrado para todo o mundo! Os próprios amazonenses provavelmente não se reconhecerão nesses locais onde tudo é muito bonito, limpo, e atrativo em contraste com a dura realidade vivida por eles nos 772 municípios que constituem uma população de mais de 21 milhões de habitantes, na sua maioria pobre.
O IBRAM (Instituto Brasileiro da Mineração), competente lobby das mineradoras, quer demonstrar que a mineração é parte da solução para os desafios da Amazônia. Assim, ele vai discutir e valorizar o conceito de “nova mineração” mostrando que esta importantíssima atividade econômica pode seguir um modelo de baixo impacto, alinhado com práticas sustentáveis e capazes de estimular a bioeconomia local. Segundo o IBRAM, “a meta não é apenas extrair recursos, mas também investir no fortalecimento do tecido social e econômico da região, respeitando os saberes tradicionais e os direitos dos povos originários.” Apoiado por um marketing de alto nível (e custo!), o IBRAM chega a falar, “perigosamente”, de uma “mineração para a floresta” desfazendo assim da inteligência das pessoas. As perguntas que continuamos fazendo são objetivas e relativas ao seu passivo ambiental: Quem acredita na VALE S.A? Devemos esquecer o passivo de 292 mortes no Rio Doce/42 municípios e Paraopeba/Brumadinho?
* Claudio B. Guerra é consultor ambiental na bacia do Rio Doce nos últimos 32 anos. Fez o mestrado em recursos hídricos pelo UNESCO Institute for Water Education, em Delft, na Holanda
