Expedição Aves do Piracicaba registra o mais procurado “fantasma” da bacia

 Expedição Aves do Piracicaba registra o mais procurado “fantasma” da bacia

Em meio ao que há de mais sagrado, palco originário de processos evolutivos que criaram seres perfeitos, sobreviventes ancestrais das inexoráveis leis da Natureza, lá fomos nós, em busca do improvável, do inefável, do onírico. Tentar, mais uma vez, registrar o maior “fantasma” da bacia do Piracicaba.

Até pouco tempo atrás, tal feito era exclusivo a dispositivos secretos e a alguns pouquíssimos seres especiais, viventes das matas, que se dedicam a vasculhar seus segredos. E foi um desses seres iluminados que criou o encanto que conseguiu invocar nossa entidade.

Mas não pensem que baste tal magia, é necessário um rigoroso ritual.

O altar onde nos prostramos em meio à Natureza deve ser muito bem escolhido, tudo deve ser pensado antes da invocação, porque após iniciada, devemos nos fundir totalmente à quietude da mata. Sons estranhos podem afetar a total materialização do emplumado ente.

Após construído um templo que nos integra ao sagrado, o encanto invocatório é lançado ao ar, mas seu raio de ação, devido ao poder da floresta, é limitado a cerca de 200 metros. Então, se nosso fantasma não estiver ou entrar em seu raio de alcance, durante suas perambulações pela mata, nada acontecerá.

A primeira tentativa, no Maranhão, com o criador do encanto, o grande Mestre das matas e alquimista sonoro Luis Morais, não obteve êxito devido à não observância criteriosa de todo ritual pelos participantes. A segunda, os caros leitores já puderam conferir no Tribuna, na primeira (e especial) edição do ano.

Após um dia inteiro de buscas ao longo da estrada do Salão Dourado, e novamente com o Henrique Junior, nosso guia especialista na fauna do Parque Estadual do Rio Doce, fomos a um lugar inédito para mim, mesmo já frequentando o PERD há décadas.

Outro lugar fantástico, conhecido como “Ponte Perdida”, que dá acesso a uma trilha que corta o parque, a “Transperdida”.

Durante a trilha, a primeira parte do ritual foi concluída.

Zilhares de micuins seguiam o curso de suas vidas em nossas vestes, deixando consequências em formas de perebas e coceiras intermitentes, por vários dias. O Henrique contou que todas as vezes que ele encontrou nosso fantasma, pegou carrapato.

Após atravessarmos um riacho encachoeirado e passarmos por várias árvores gigantes (que renderam um apelido ao PERD: Amazônia mineira), chegamos no nosso destino.

O local não poderia ser melhor, tinha certeza que se não fosse ali, não seria dessa vez e nem tão cedo. Era tudo ou nada!

Depois de mais de uma hora de invocações, o Henrique sugeriu procurarmos em outro lugar, mas, convicto, resisti, e continuamos ali, pacientemente sonhando.

O desânimo começara a me abater, então lembrei de tudo que já havia passado com esse bicho, os estalos que começavam longe e à medida que iam se aproximando, o coração saindo pela boca, até que no máximo vultos passavam por nós e desapareciam, sem qualquer chance de retorno.

Sabia que praticamente só tínhamos uma chance, o bicho passar no raio de alcance do playback, 200 metros em meio a quilômetros quadrados de território, e ainda se aproximar sem nos notar, e ainda parar num local visível, em meio à mata escura e sub-bosque denso. E, por fim, tudo dar certo com a captação da (pouca) luz ambiente refletida no bicho, vulgo fotografia.

Quase duas horas depois, estalos quebram o silêncio da mata primária, tornando trêmulas as mãos e descontrolado o coração.

A cada aproximação dos estalos, a emoção aumentava.

Se tivesse algum problema cardíaco, tinha empacotado ali mesmo.

Era um casal e muitos estalos. A mente estalava de ansiedade também! Será que o sonho de registrar a espécie mais difícil da bacia iria, enfim, se realizar?!

E de repente o fantasma se materializa, justamente no maravilhoso palco natural que desejávamos para sua estreia no Tribuna, e que agora temos a imensurável satisfação em compartilhar.

 

Eis o Jacu Estalo.

Dindão Dindão

Dindão

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