Especialista* alerta para desassoreamento sem levantamento de dados e estudos aprofundados
Quando passamos por dificuldades em nossas vidas, geralmente almejamos soluções rápidas que removam o problema com a mínima mudança na nossa rotina. Para ilustrar esses casos, cito dois exemplos. O primeiro é quando incorremos em um problema financeiro e para resolver acreditamos que apostando na loteria conseguiremos ganhar uma grande quantia rapidamente. O segundo é quando descobrimos uma doença séria e vamos ao médico na expectativa de resolver com um remédio ou tratamento rápido. Infelizmente em casos como esses a solução não ocorre de forma instantânea e vem apenas com muito trabalho, mudanças de hábitos ou longos tratamentos.
A situação de uma pessoa que habita área de risco por cheias é análoga. Existe um problema que ameaça seus bens, sua propriedade e, inclusive, sua vida. É perfeitamente compreensível – é nosso comportamento humano – que a pessoa queira a solução rápida e de menor impacto em sua rotina. Natural ainda que, sendo a pessoa leiga, vislumbre como solução as grandes obras de engenharia, como uma grande barragem ou a dragagem do rio. Este cenário de esperança é, inclusive, profícuo para o aparecimento dos vendedores dessas soluções. Mas é necessário tomar muito cuidado quando tais propostas, por exemplo, de dragagem, não aparecem acompanhadas minimamente de informações elementares, como quais são de fato locais assoreados, qual o volume de material no leito que deve ser retirado, qual a composição desse material, qual o grau de proteção que essa medida fornecerá e por quanto tempo.
Se tomarmos ações para executar grandes medidas de modificação da natureza sem o devido levantamento de dados e cuidado, podemos ocasionar danos maiores para os próprios interessados na obra e para terceiros que estão rio abaixo.
Três exemplos desses riscos são: (I) o procedimento pode resultar em alterações na estabilidade das margens dos rios, ocasionando o solapamento de margens; (II) o rebaixamento do leito dos rios pode fazer com que a água flua mais rapidamente para jusante, agravando problemas de cheia rio abaixo; (III) a população protegida até um limite pela medida pode ter a falsa sensação de segurança e acabar se expondo mais aos perigos.
(NR) – Insiro um (IV) – Enxugar gelo – se não identificar e cessar ou reduzir a fonte geradora dos resíduos que causam o assoreamento, a ação pode se tornar um verdadeiro “enxuga gelo”, desperdiçando vultuosas quantias de recursos públicos.
Nesses casos não entram ainda os custos elevados da dragagem, que podem ser cíclicos na medida em que ela precise ser refeita, nem a avaliação do custo de oportunidade de aplicação desses valores em outras medidas de prevenção que possam gerar maiores benefícios (investir na causa).
Entendo que trazer essas ponderações pode trazer um balde de água fria na esperança de solução rápida e sem mudanças na rotina de muitas pessoas. Ser portador dessas questões pode significar impopularidade, exatamente o inverso do que acontece com defensores. Mas é necessário alertar para os riscos antes que ações sejam tomadas sem dados básicos e de forma apressada.
*Fernando Mainardi Fan é professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS.

