O Rio de Piracicaba (SP) e o exemplo do Projeto Beira Rio
Cantado em prosa e verso desde a década de 1970, pela famosa dupla sertaneja Tião Carreiro e Pardinho, o Rio de Piracicaba tornou-se conhecido não só por suas belezas naturais, que se transformaram em atrações turísticas, mas também pela enorme identidade que guarda com a população piracicabana. O dia 15 de abril é comemorado como o Dia do Rio e integra o calendário turístico da cidade.
Localizada a apenas 158 Km da capital São Paulo, Piracicaba tem hoje cerca de 400 mil habitantes e sua economia está baseada na indústria metal-mecânica e automotiva de exportação (com a presença de empresas como a Caterpilar e Hyundai), além da produção de cana de açúcar, açúcar, álcool, ferro e aço, que representam 38% do seu PIB. O setor de serviços e comércio representam cerca de 55 % do PIB.
Piracicaba conta com uma universidade de reconhecimento internacional que é a ESALQ/USP (Escola de Ensino Superior Luis de Queiroz), considerada como uma das melhores escolas de Ciências Agrárias da América Latina. Esta instituição disponibiliza apoio tecnológico para o desenvolvimento de biotecnologia e inovações no agronegócio, que são considerados como estratégicos para o futuro do município. Cabe salientar aqui que o município de Piracicaba conquistou o primeiro lugar nacional de Tratamento de Esgotos no Ranking do Saneamento de 2026, conforme divulgado pelo Instituto Trata Brasil. Essa vanguarda na gestão no saneamento ocorre, graças a um trabalho de planejamento, investimentos e operação contínua mantidos pelas diversas administrações municipais. Todo o esgoto coletado na cidade passa por tratamento antes de retornar ao meio ambiente. São 25 Estações de Tratamentos de Esgotos e uma rede coletora de cerca de 2.000km. Por outro lado, o sistema de tratamento de água atinge 98% de população, mas as perdas na distribuição chegam a 51% e a falta d’água ainda é um problema que afeta parte dos usuários. Segundo a Prefeitura de Piracicaba, investimentos já estão sendo aplicados para resolver o problema. Do ponto de vista socioambiental, a cidade de Piracicaba e o seu Rio estão interligados em lugares e construções históricas, em paisagens, na economia e na sociedade, nas artes e no folclore – conformando uma ampla relação de identidade. O Rio, com seus meandros na área central da cidade, é visto como um patrimônio natural, cultural e histórico. O Dia do Rio, a Festa do Divino, a forte tradição da música sertaneja caipira e o sotaque característico de sua gente, “puxando o r”, são elementos simples dessa identidade. A partir de meados da década de 1970, surgiu a idéia do Projeto Beira Rio “que entendia que o Rio e a cidade formavam um sistema biocultural uno e generalizado, no qual o desenvolvimento da cidade passa pelo desenvolvimento de sua relação com o Rio. O planejamento desta relação é fundamental para a construção de uma cidade sustentável, calcada na indissociabilidade entre evolução econômica, preservação dos recursos naturais e inserção social” (Prefeitura de Piracicaba, 2001).
Um aspecto positivo foi o de que as diversas administrações municipais deram continuidade ao Projeto desde a elaboração de um diagnóstico antropológico e participativo detalhado até as desapropriações. Um Plano de Ação Estruturador (PAE) da paisagem da orla urbana, realizado pela ESALQ/USP, iniciou-se requalificando a Rua do Porto. Depois, surgiram várias intervenções, realizadas com a perspectiva do cidadão ocupar os espaços, na área central da cidade, na Avenida Beira Rio, no trecho entre o Calçadão da Rua do Porto e a Rua São José.
Foram criados então o Parque da Rua do Porto e o Parque do Povo (com quadra poliesportiva, pista de skate, lago, bares, restaurantes etc.) onde são realizadas atividades permanentes e temporárias (festas, etc).
O Projeto Beira Rio consolidou-se, então, como um processo contínuo de desenvolvimento de melhorias com foco na relação Rio /cidade. Por exemplo, ocorreu a recuperação de grandes partes das margens como espaço público, livrando-as da condição de “barrancos” e possibilitando as caminhadas pelas margens do Rio, e até o pescar (com vara). Valoriza-se, assim, a presença dos moradores e suas relações com ele.
Em 2025, IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) recebeu o pedido de tombamento do Projeto ou Complexo Beira Rio. Em 2026, as comunidades locais criaram a organização Coletivo Beira Rio para participar e ajudar no cuidar de forma independente desse importante projeto para as próximas gerações .
A experiência de Piracicaba e do seu Rio mostram claramente que com parceria, vontade política e transparência é perfeitamente possível construir um Brasil melhor.
*Claudio B. Guerra é consultor ambiental na bacia do Rio Doce nos últimos 30 anos. Fez o mestrado em recursos hídricos pelo UNESCO Institute for Water Education, em Delft, na Holanda.


