A Guerra no Oriente Médio e a Água

* Claudio B.Guerra

O conjunto da população de todos os países envolvidos na Guerra do Oriente Médico chega a cerca de 280 milhões de pessoas, na sua maioria falando árabe e professando a religião islâmica. Essa região já foi berço de civilizações milenares (Suméria, Persa, etc) e hoje é um caleidoscópio de diferentes culturas.

A partir da II Guerra Mundial, iniciou-se ali a exploração de petróleo em grande escala, pela descoberta de inúmeras reservas. Hoje a região é a maior produtora de petróleo do mundo e seus países estão organizados em torno da OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo).

Experiências anteriores mostraram que ali qualquer incerteza ou imprevisibilidade (como uma guerra, por exemplo) afeta diretamente não só os países da região, mas também abalam a economia e o crescimento econômico global. É o que diz o FMI (Fundo Monetário Internacional). 

Por outro lado, lembremos que essa é a região mais árida do planeta, com temperaturas elevadíssimas durante todo o ano e baixíssimo índice de chuvas.

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas) essa região sofre o maior estresse hídrico do planeta e, nesse cenário, é fundamental a presença de dezenas de usinas de dessalinização e também de seus aquedutos responsáveis pela chegada e distribuição da água (salina e potável). Países como Kuwait (90%), Omã (86%) e Arábia Saudita (70%) dependem quase totalmente da água dessalinizada.                                

Segundo o Banco Mundial, as usinas de dessalinização estão presentes em 177 países do mundo, sendo que cerca de 45% delas estão localizadas no Oriente Médio. Numa das regiões mais secas do mundo, onde o acesso à água é dez vezes menor que a média global, as usinas de dessalinização desempenham um papel primordial na economia e no abastecimento de água potável para seus milhões de habitantes e a operação de hospitais, escolas, agricultura, atividades industriais etc.                                                                                                                                               O processo de dessalinização envolve várias fases: captação, pré-tratamento, osmose reversa (bombeamento e retenção de cerca de 99% dos sais e impurezas), remineralização e desinfecção. Por último, no seu descarte aágua salobra tóxica é diluída e devolvida ao mar de forma controlada para evitar impactos ambientais, principalmente na biota aquática.  

A maior fonte de captação de água vem do Golfo Pérsico por sua menor distância aos centros consumidores. Em menor escala de captação estão o Mar da Arábia e o Golfo de Omã.

Segundo a Global Water Inteligence (GW I), empresa especializada nesse setor, o custo médio anual gira em torno US$1,5 por m3 ( 1.000 litros),  mas existe uma tendência desse custo diminuir com o tempo mesmo considerando o elevado investimento para a montagem das usinas.

É fato que a segurança hídrica na região é extremamente frágil e a dessalinização é, atualmente, o principal pilar para a sobrevivência de grandes centros urbanos no Golfo Pérsico. 

As centenas de bombardeios da atual Guerra atingiram não só os reservatórios e refinarias de petróleo, mas também de algumas dessas usinas de dessalinização. O curioso é que, ambas as partes, parecem estar, até então, poupando ou adiando o bombardeio indiscriminado às usinas de dessalinização. Quem se atrever a atacar essas usinas pode desencadear uma guerra muito mais arrasodora que a atual. A situação é delicada diante do poder de mísseis e drones que já mataram milhares de civis e destruíram a infraestrutura de vários países, principalmente no Iran e Líbano.

 Diante da vulnerabilidade a ataques aéreos, que já causaram consequências humanitárias drásticas, as autoridades de vários países instalaram baterias antiaéreas de mísseis ao redor das maiores usinas de dessalinização.  A destruição dessas plantas pode levar, inicialmente, ao racionamento e, depois de esgotados os reservatórios, a evacuação de grandes cidades, como por exemplo, Riade, capital da Arábia Saudita, que tem hoje cerca de 8 milhões de habitantes e Teerã, capital do Iran,  cuja região metropolitana tem cerca de 17 milhões de habitantes.Haveria também os efeitos em cadeia na economia, especialmente no turismo, na indústria e nos centros de dados, que consomem grandes quantidades de água para sua refrigeração. 

Concluindo, a água potável no Oriente Médio enfrenta hoje uma crise aguda e se tornou um alvo estratégico nos conflitos da Guerra de 2026. A falta de água potável e a geopolítica regional mostram claramente que elas podem contribuir para agravar os horrores dessa guerra insana.

 * Claudio B. Guerra é consultor ambiental na bacia do Rio Doce nos últimos 30 anos. Fez o mestrado em recursos hídricos no UNESCO Institute for Water Education, em Delft, na Holanda.

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