O conceito de Justiça Climática

“Clima é um estado da atmosfera em uma dada hora e lugar em relação a variáveis como temperatura, umidade, velocidade dos ventos e pressão barométrica” (Rob Demillo).

 

O conceito de clima é bastante complexo o que leva a maioria das pessoas a não o conhecer adequadamente, embora sintam seus efeitos cada dia mais, com as ondas de calor intenso aumentando a cada ano.

O ano de 2024 foi o mais foi o mais quente no Brasil e no mundo, batendo um recorde histórico. Já em 2025, tivemos cinco casos de calor intenso, principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Pesquisa Data Folha, de novembro de 2025, mostra que 89% de nossa população vê as mudanças climáticas como um risco para nosso futuro. Pesquisa da REDE GLOBO 2025 mostra que a grande maioria de nossa população superestima seu conhecimento sobre o fenômeno, que na verdade é muito baixo, mostrando uma dissonância que nos leva a desconfiar de que se trata de “respostas socialmente aceitáveis.”

 

Justiça climática

Justiça Climática é um conceito que surgiu na década de 1990 e busca relacionar a crise climática com desigualdades sociais, econômicas e históricas. Aqui é importante lembrar que  

que NÃO ESTAMOS NO MESMO BARCO, isto é, as mudanças climáticas não afetam as pessoas da mesma forma e que os países, povos e comunidades mais pobres são os que sofrem os maiores e piores efeitos. O paradoxo é que, geralmente, estes são os menos responsáveis pela emergência climática. Portanto, o fenômeno das mudanças climáticas aprofunda desigualdades sociais existentes, transformando o acesso a ambientes mais frescos em privilégio de poucos.

A tragédia que atingiu dezenas de municípios no Rio Grande do Sul ilustra o impacto das desigualdades. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha revelou que a população mais pobre, negra e com menor escolaridade foi a mais atingida. Quase metade (47%) das famílias que ganham até dois salários-mínimos respondeu ter perdido casa, móveis, eletrodomésticos ou o próprio sustento. Já entre aquelas que ganham de cinco a dez salários, só 13% relatam algum tipo de prejuízo. A proporção de pretos que relatou algum tipo de perda com as enchentes foi de 52%; entre os pardos, 40%; e entre os brancos, 26%.

Pesquisa realizada pelo Instituto Clima e Sociedade, em 2021, mostra que a grande maioria dos deputados federais (94%) se diz muito interessada pelas questões ambientais. Entretanto, em sua percepção, cada deputado afirmou que apenas 7% de seus colegas de Congresso estão muito interessados nas questões ambientais, enquanto 68% estariam apenas interessados, e 19%, pouco interessados. Esses dados são curiosos quando observamos o número de emendas parlamentares contempladas em atividades ligadas a intervenções no meio ambiente, principalmente para a população mais pobre o que poderia levar a adequações para prevenir e reduzir os efeitos climáticos negativos sobre ela.

Como mostra o Data Folha, deputados e senadores destinaram menos de 0,6% das emendas individuais no Orçamento de 2026 para o meio ambiente.

A sociedade brasileira tem o dever de exigir a prática da Justiça Climática, nos 3 poderes da República. O Congresso Nacional finge que está tudo bem e, quando questionado, só dá “respostas socialmente aceitáveis.”

Nossa Belo Horizonte

Belo Horizonte foi criada em 1897 como uma cidade planejada, tendo algumas influências da cidade de Washington, capital dos Estados Unidos. Entretanto, seu crescimento acelerado e sem planejamento, levaram não só ao desvio de função da Avenida do Contorno, mas especialmente a uma agressiva especulação imobiliária. A configuração atual de grandes cidades como, por exemplo, Belo Horizonte e Goiânia, mostra a presença exaustiva de superfícies que absorvem o calor (“ilhas de calor”), falta de áreas verdes e uma arborização urbana decorativa e mal planejada. A temperatura na Praça Sete hoje está cerca de 3 graus acima do que era em 1970.

Em Belo Horizonte temos também dois exemplos inaceitáveis: as obras de modernização do Estádio do Mineirão e a construção de uma pista para corrida de automóveis, ambas em terreno de propriedade da UFMG, na Pampulha, derrubaram mais de 1.000 árvores e criaram um “microclima” ou uma “ilha de calor”, que nos lembra um forno. Naquela região, tudo foi coberto com asfalto e cimento e ali se registram temperaturas significativamente maiores que as das áreas vizinhas arborizadas.

Nossa Belo Horizonte está se tornando uma estufa e nossos governantes não fazem sua parte. Durante as ondas de calor intenso, os dados oficiais mostram que acontece um aumento considerável nas internações hospitalares e na mortalidade, principalmente de crianças e idosos mais pobres.  As comunidades de baixa renda sofrem desproporcionalmente, pois geralmente, vivem em bairros com menos cobertura vegetal e infraestrutura inadequada para lidar com temperaturas extremas e chuvas intensas, uma consequência visível é a sobrecarga do sistema de saúde, já pressionado por inúmeras demandas.

O que podemos ver com clareza é a necessidade urgente de se fazer adaptações nas nossas cidades, adotando soluções simples como uma ampla e acessível rede de bebedouros públicos e estruturas permanentes de hidratação. Segundo o prof. Carlos Nobre (INPE) precisamos também exercitar nossa resiliência ao calor: beber muita água, usar roupas leves, se proteger do sol, procurar locais mais frescos, usar protetor solar, chapéu etc.                                                                                    A arborização urbana é um aspecto da maior importância, mas que infelizmente não vem sendo tratado com a metodologia e profissionalismo necessários, (sistema de podas, passeios, tipo de árvores, fiação elétrica etc.) Vale lembrar que, principalmente, as árvores de grande porte, são capazes de criar “ilhas de bem-estar” da maior importância para os moradores.

Uma alternativa importante são as campanhas educativas massivas na mídia sobre a prevenção contra os efeitos das mudanças, onde a arborização desempenha papel primordial.            Portanto, precisamos esverdear “Belo Horizonte” num esforço desafiador e que precisa contar, necessariamente, com o compromisso e a participação dos três níveis do governo, do setor privado e da nossa população.              

 

* Claudio B. Guerra é consultor ambiental na bacia do Rio Doce nos últimos 30 anos. Fez o mestrado em recursos hídricos pelo UNESCO Institute for Water Education, em Delft, na Holanda