Notícia
15/12/2020

Serra do Caraça ameaçada por mineradoras

Passa ano e entra ano e as mineradoras não desistem de minerar na Serra do Caraça.

A população de Catas Altas resiste a todo momento, mas vira e mexe é pega de surpresa.

Dessa vez a Frente Mineira de Luta das Atingidas e dos Atingidos pela Mineração (FLAMA) fez alerta chamando a atenção de todos que lutam pela preservação do patrimônio histórico e natural de Minas em Gerais e, mais especificamente, da Serra do Caraça.

Segundo a Flama, consta no SCM (Sistema de Cadastro Mineiro) da ANM (Agência Nacional de Mineração) o desbloqueio, por via judicial, de áreas com pedidos de lavra de minério de ferro aprovadas que cercam a face leste da Serra do Caraça, saindo de Mariana, passando pelo Morro d’Água Quente e Catas Altas até Cubas, na divisa com Santa Bárbara.

As áreas contam com os seguintes números de registro: 000098/1959; 001182/1958; 001183/1958; 001184/1958, (001.182/1958 Portaria nº 1.183/1982 Catas Altas/MG C-25, fls. 87 001.183/1958 Portaria nº 1.646/1980 Catas Altas e Mariana/MG C-20, fls. 141 001.184/1958 Portaria nº 1.150/1982 Catas Altas e Mariana/MG C-25, fls. 56) sendo o primeiro pertencente à empresa Pedreira Um Valemix, e os demais direitos pertencentes à Vale S.A.

Ainda conforme a Flama a fazenda Quebra Ossos, da empresa Pedreira Um Valemix, que faz divisa com a RPPN do Santuário do Caraça, é o local de onde se pretende retirar 300.000 (trezentas mil) toneladas de ferro por ano.
A Fonasc (Fórum Nacional dos Comitês das Bacia Hidrográficas) já solicitou Audiência Pública para que as populações possam participar ativamente desse processo.

O encantamento da mineração

Quando uma cidade faz da mineração sua principal atividade econômica, logo se vislumbra no horizonte um momento em que, com o fim da exploração, haverá um colapso da renda de seus habitantes e das receitas municipais. As empresas vão embora com os lucros, e os moradores ficam com os danos ambientais e sociais. É um processo que ocorre em diversos locais, sendo que no Brasil encontramos histórias como a do município de Catas Altas, onde os erros do passado parecem um roteiro pronto do que aguardar no futuro. Fundado como um arraial em 1703, Catas Altas cresceu no chamado ciclo do ouro, ainda no período colonial. Ao fim do Século XIX, com o fim dessa exploração, chegou a crise, pois não havia outra atividade econômica na região. Para resistir, os moradores tiveram que aprender outras atividades, como a agricultura, até que uma suposta nova oportunidade de crescimento surgiu, a exploração de ferro. Assim se iniciou um novo ciclo, que ainda não entrou em colapso, mas que já deixa os efeitos nocivos bem mais evidentes do que os dos séculos do ouro. Todavia, a cidade já conta com moradores cientes dessa questão e que agora lutam para evitar que a história termine com a mesma conclusão.

A beleza da Serra do Caraça, que surge como uma grande muralha a proteger a comunidade, já começa a ser afetada pelos buracos abertos pela empresa, especialmente em Morro da Água Quente, vilarejo que fica ao lado esquerdo da serra. Assim como o Pico do Caué, em Itabira, terra natal de Carlos Drummond de Andrade, que de montanha virou cratera, o Pico São Luís, a cerca de mil metros do vilarejo, começa a ser destruído pela Vale, numa mineração a céu aberto que vem contaminando o ar da comunidade, assim como trazendo graves riscos de poluição e destruição das fontes de água dos moradores.

Caravana Justiça Global em Catas Altas

Os membros da caravana que passaram por Catas Altas em 2015, tiveram a oportunidade de conversar com os estudantes da Escola Estadual Alzira Ayres Pereira. Na cidade há um grande investimento da Vale em publicidade, para tentar vender a ideia de que a mineração é benéfica a todos e que se trata de uma “vocação natural” de Minas Gerais. Essa foi a oportunidade dos adolescentes ouvirem relatos de países como Moçambique, Colômbia e Peru sobre as violações cometidas pela Vale e outras empresas. Para a professora de química Agostinha Vieira, é essencial que a juventude comece a ter noção do resultado desse modelo de desenvolvimento ligado à mineração. “A mineração não é uma atividade para o futuro. Aqui em Catas Altas temos minério, água e turismo. Se não pensarmos em alternativas, o minério acaba e leva junto os outros bens da cidade. Para os jovens, é essencial perceber que há outras possibilidades de sustento que não levem à destruição do nosso planeta”, afirmou Agostinha, que, à época já contava com 40 anos de magistério.