Notícia
5/12/2020

“Terrorismo” de barragem avança

Barragem Norte/Laranjeiras, em Barão de Cocais, entrou em Nível 2 de emergência e famílias serão obrigadas a deixar suas residências.

As quase trinta e cinco pessoas que viviam nas comunidades de São José do Brumadinho e Laranjeiras, em Barão de Cocais, estão tendo a vida totalmente alterada. São 10 famílias que precisam abandonar suas casas, devido ao risco de rompimento de uma barragem da Vale, sem saber se ou quando vão voltar para o lar onde construíram suas histórias.
No final de novembro, a Vale deu início, de forma preventiva, ao protocolo de emergência em Nível 2 da barragem Norte/Laranjeiras, da mina de Brucutu, que fica na região. A Vale diz que não foram observadas alterações relevantes quanto aos fatores de segurança da estrutura e que a barragem não recebe rejeitos desde dezembro de 2019.

Miguel Antônio de Almeida, de 85 anos, tem uma propriedade rural com plantação e animais. Ele vive há mais de 20 anos no local. O filho dele, Delson Miguel, diz que a fazenda representa o trabalho de uma vida e que o pai, apesar da idade, tem uma rotina sagrada.

"Ele acorda normalmente às 4h30 da manhã, já vai fazer o café o leite, 6h já tirou leite, já prepara o leite para fazer um queijinho, aí no período da manhã, até 9h ele trabalha, capina, arruma uma horta, corta uma cana... aí para pra almoçar e descansar, e, à tarde, é a mesma coisa: separar os bezerros, limpar o curral, é coisa de interior. Cê tá doido, se eles tirarem isso aqui dele, eu perco meu pai rapidinho", afirma.

Igreja de São José do Brumadinho

Uma das maiores dores da comunidade é abandonar a Paróquia de São José do Brumadinho. A barragem foi construída, sob a complacência das autoridades, logo acima do santuário que tem uma história importante para as famílias. Há registros de um milagre registrado no local por volta de 1740, dando origem à igreja, que é referência regional.

Quem construiu a paróquia foi o avô de Márcio Gonçalves Fernandes, que carrega com a família a história e responsabilidade pela igreja. Ele diz que acredita que nunca mais vai poder voltar ao local, que fica na zona de impacto em caso de rompimento da barragem. A tristeza é maior porque é naquela terra que os pais dele estão enterrados.

"É muito doído. Você imaginar que você estava ali, sepultando sua mãe, seu pai, naquela tristeza, agora imaginar que tudo ali está acabando. Sem contar que era um lugar que todo mundo amava. Isso está matando a gente. Infelizmente o poder, a ganância, a cobiça dos grandes, hoje, sufoca nós pequenos, a fé, e tudo mais que você imaginar", diz.

Lama invisível

O professor da Universidade Federal de Minas Gerais, André Freitas, coordena um programa da UFMG que acompanha cidades atingidas pela chamada "lama invisível". É assim que é conhecido o risco de rompimento, que provoca o medo nas cidades afetadas. O pesquisador diz que, para uma das perguntas feitas no estudo, a resposta é sempre a mesma.
"O que vocês entendem que seria uma solução para tudo o que vocês estão vivenciando. E a resposta delas foram muito parecidas e muito interessantes porque elas disseram: nós queremos que a empresa devolva nosso presente, devolva nosso futuro, nossos sonhos, e não enterre nosso passado. Nós queremos, simplesmente, que as empresas descomissionem as barragens para que não tenhamos mais que conviver com esse medo diariamente".

Removendo vidas

De acordo com a Vale, todas as 10 famílias já foram comunicadas. Elas vão escolher um sítio para onde serão levadas. A primeira remoção começou no dia 2 de dezembro.

A mineradora diz que vai prestar toda a assistência necessária às famílias até que a situação seja normalizada. Mas, quando questionada sobre um plano de descomissionamento da barragem, o que poderia resolver definitivamente o problema, a empresa não se manifestou.

Próximas remoções

Cerca de 800 mil pessoas vivem nas 21 cidades da Bacia do Piracicaba e, mesmo que não saibam, de alguma forma, todas elas estão ameaçadas de serem desalojadas por barragens de rejeito de minério.

Enquanto o governo e a maioria da própria população assistem passivamente inúmeros licenciamentos minerários serem liberados sem que as empresas sequer cumpriram com suas obrigações frente aos inúmeros desastres / crimes ocorridos recentemente, as máquinas de produzir tragédias das mineradoras continuam a devorar o futuro da região.

Com Informações G1 / Bom Dia / Diário de Barão