Notícia
18/12/2019

Barragem de Laranjeiras: medo aumenta com aparecimento de trinca

Comunidade do Uma seria a primeira a ser atingida, destruição continuaria até o Rio Doce

São Gonçalo do Rio Abaixo - Um relatório da Feam (Fundação Estadual de Meio Ambiente) aponta que a barragem de Laranjeiras, da Vale, tem uma trinca de 7 metros de comprimento e 8 centímetros de largura. A estrutura pertence à mina de Brucutu, que fica em São Gonçalo do Rio Abaixo, a 88 km de Belo Horizonte.

A fissura é irregular, com quatro intervalos com espessuras entre 10 e 15 cm e extensão de 20 a 25 cm.

Há quinze dias, a Vale suspendeu parte da produção da mina de Brucutu, que é a segunda maior do Brasil, e explicou que vai operar nos próximos dois meses com 40% da capacidade. Segundo o comunicado, a produção de minério de ferro será reduzida em 1,5 milhão de tonelada por mês.

A mineradora não detalhou os problemas identificados na mina, apenas informou que fazia "avaliações sobre as caraterísticas geotécnicas da barragem". São estas trincas e deslizamentos que constam no documento da Feam.

No mesmo comunicado, a Vale destacou que a declaração de estabilidade (DCE) de Laranjeiras foi emitida em 30 de setembro de 2019 e permanece válida. Na data, a barragem foi elevada para nível 1 de segurança, quando não há risco iminente de rompimento e nem a necessidade de evacuação da área.

Trinca

Segundo a Feam, órgão que pertence à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a trinca está em um degrau superior da estrutura, que é alteada a jusante — método mais seguro que as barragens de Fundão, em Mariana, e do Córrego do Feijão, em Brumadinho.

Os estudos, acompanhados pela ANM (Agência Nacional de Mineração), mostram que a trinca é irregular e em alguns pontos chega a ter até 25 centímetros de largura. Além disso, monitoramento por radar identificou anomalia na ombreira esquerda que acumula um deslizamento de até 8,5 centímetros desde 19 de junho do ano passado.

Os técnicos instalaram vergalhões e aplicaram uma solução de cal na fissura para monitorar sua evolução, além de usar prismas topográficos para monitorar o talude. Conforme a Feam, "as leituras derivadas desses instrumentos ainda não haviam sido coletadas e analisadas pela equipe".

Para monitorar a evolução e extensão da fissura, técnicos da empresa Advisian escavaram manualmente um orifício de 1,5 m de profundidade por 1 m de diâmetro. A Vale rebaixou o nível dágua da barragem para reduzir os riscos e está investigando de forma mais detalhada a dimensão da fissura. A Feam e a ANM acompanham os trabalhos.

Comunidade ameaçada

A barragem de Laranjeiras tem 25 milhões de metros cúbicos (o dobro da barragem que rompeu em Brumadinho). Em um eventual rompimento, a lama desceria em direção à cidade vizinha de São Gonçalo do Rio Abaixo. Na área de autossalvamento, a primeira a ser atingida, vivem sete moradores e trabalham 17 funcionários de empresas terceirizadas da própria Vale.

Conforme o plano de emergência da barragem (PAEBM), em 50 minutos a lama chegaria à Comunidade do Una, onde vivem 700 moradores. Parte da comunidade (50 casas, onde moram 200 pessoas), seria completamente destruída pelos rejeitos.

A lama também chegaria ao rio Una, que deságua no rio Santa Bárbara, responsável pelo abastecimento de João Monlevade, cidade com aproximadamente 80 mil habitantes.

Além da Laranjeiras, uma segunda barragem da Vale é constante ameaça à cidade de São Gonçalo. A barragem Sul Superior, da mina Gongo Soco, em Barão de Cocais, está em nível 3 de segurança desde o início deste ano, quando uma parte do talude começou a se movimentar.

A lama dessa barragem, em caso de rompimento, também se desloca em direção a São Gonçalo e atingiria todo o centro da cidade. Por causa dessa ameaça, moradores do centro já passaram por um simulado de treinamento.

A Defesa Civil vai realizar, no início de janeiro, um simulado de emergência com os moradores da comunidade.

O que diz a Vale

Em resposta a Vale destacou que a barragem de Laranjeiras não perdeu a declaração de estabilidade e que "tem feito reuniões periódicas com os órgãos competentes e informado a comunidade".

Fonte: R7